A Tragédia Narcisista: Uma Leitura Tomista da Violência Contra a Própria Família

Não é exagero dizer que, desde as ruínas de Roma até as neuroses modernas das grandes metrópoles, o homem sempre foi chamado à sobriedade do amor responsável — pelo outro, pela ordem, pela comunidade. Quando esse chamado é ignorado, a desordem interior pode degenerar em tragédia. No caso de Itumbiara, Goiás, essa desordem tomou a forma mais brutal e incompreensível. Um secretário de governo que atirou contra seus dois filhos menores e, em seguida, tirou a própria vida.

O homem, cujo nome foi identificado nas reportagens como Thales Machado, de 40 anos, ocupava coerentemente um cargo público de confiança e exercia funções administrativas em uma prefeitura. À primeira vista, sua vida parecia aparentemente “bem-sucedida”. Carreira, família, projeção social e reconhecimentos — inclusive de autoridades, conforme as notas oficiais de luto e solidariedade.

Contudo, horas antes do ato horrendo, ele publicou em suas redes sociais uma mensagem carinhosa com seus filhos — “Que Deus abençoe sempre meus filhos, papai ama muito” — e também uma carta (posteriormente apagada) em que relatava dificuldade no casamento, suposta traição da esposa e pedia perdão.

Esses elementos — a necessidade de ser visto como amado, a exposição pública de afetos e dores, a oscilação entre afirmações de amor e um ato de violência extrema — não são apenas sinais de sofrimento emocional intenso. Eles evocam um padrão profundo explorado desde Aristóteles até Santo Tomás de Aquino que é a tensão destrutiva entre a autoestima alienada e a responsabilidade para com o outro.

No narcisismo, como estruturado pela psicologia e pela filosofia clássica, o centro da identidade é deslocado do “ser para o outro” para o “ser para si mesmo”. O sujeito narcisista não se reconhece como criatura dependente, inserida em relações recíprocas de amor e dever, mas como centro absoluto das próprias emoções e percepções. O amor, nesse caso, não floresce como dom, mas como imposição do próprio desejo. A dor, a frustração ou a perda de controle sobre a própria narrativa são vividos como insultos intoleráveis à autoimagem grandiosa.

O ato de narrar nas redes sociais, especialmente com apelos emotivos e declarações públicas, pode revelar algo mais que simples desabafo. Do ponto de vista tomista, é uma expressão de um “eu” desvinculado da racionalidade prática (a razão e a vontade) e dominado por um afeto desordenado. Em vez de submeter as paixões à razão, ele as deixou — como um tirano — governar o juízo e a ação final. O amor de um pai aos filhos, transformado em ato de posse sobre as vidas deles, revela o narcisismo em sua forma mais trágica: a distorção do amor em vontade de poder sobre o outro.

Aqui, é útil recordar o ensinamento tomista sobre as paixões e a vontade. Para Santo Tomás, as emoções não são inimigas da razão, mas devem ser ordenadas por ela. A vontade de amar não é apenas uma reação aos sentimentos momentâneos, mas um ato deliberado que visa o bem do outro. Quando a razão é ofuscada pela dor, pelo orgulho ferido ou pela necessidade de afirmação do “eu”, o sujeito perde sua capacidade de agir segundo a verdade do amor, substituindo-o por um amor possessivo e despótico.

Essa dinâmica é típica de estruturas narcisistas patológicas: ênfase exagerada no self*, incapacidade de tolerar frustrações afetivas e uso instrumental dos outros para validar a própria identidade. Quando o self narcisista encara uma falha ou ameaça (real ou imaginada), sua reação pode ser desproporcional — não porque ele é irracional, mas porque sua razão prática (virtude da prudência, do verdadeiro amor) foi eclipsada por paixões desordenadas.

Seja qual for a investigação policial, a psicoterapia tomista não busca apenas descriminar culpados ou patologias no sentido clínico superficial. Ela quer ir à raiz do que torna o homem desordenado que é a perda de sentido do eu para o outro — a perda da graça que nos orienta à verdade sobre nós mesmos e sobre o mundo. Um sujeito que ama de forma narcisista, no fim, ama apenas a própria imagem de amor que construiu. Quando essa imagem se desfaz, resta o vazio e a violência que segue.

A psicoterapia tomista, portanto, não trata apenas “sintomas”. Ela trabalha para restaurar no sujeito a harmonia entre razão, vontade e afeto, cultivando virtudes como a humildade, a temperança e a fortaleza. Essas virtudes reorientam o coração humano para o verdadeiro amor — aquele que reconhece o outro como fim, não como meio; que acolhe a realidade dolorosa sem recorrer à violência; que, em vez de destruir diante da perda, aprende a sofrer com sentido.

Numa cultura em que o narcisismo ganha mais espaço — alimentado por redes sociais, visibilidade constante e uma autoimagem inflacionada — essa tragédia nos chama a refletir sobre o que significa amar verdadeiramente. Amar não é apenas sentir ou declarar — amar é agir, com coração firme e razão aquietada, para o bem do outro, mesmo no sofrimento.

A cura, na perspectiva tomista, começa quando se abandona o eu desordenado e se retoma o outro como verdadeiro lugar do encontro com Deus e com o próprio self restaurado. Só assim se transforma o narcisismo que destrói em amor que edifica — e, assim, se evita que outra tragédia como a de Itumbiara se repita.

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* Self é uma palavra inglesa que quer dizer, literalmente, “eu”. Mas não o eu real. É o “eu como eu me percebo”.
É a imagem mental que a pessoa constrói de si mesma.

Para Santo Tomás de Aquino, o que define você não é um self, é a alma racional.

O self é só um mapa psicológico disso tudo — às vezes torto, às vezes mentiroso. O narcisista não vive a partir da alma, mas da imagem que fez de si mesmo.

Por que isso importa na psicoterapia tomista?

Porque curar não é inflar o self. Curar é realinhar o self com a verdade da alma.

A psicoterapia tomista trabalha para:

  • desmontar o personagem falso
  • restaurar a razão
  • educar a vontade
  • ordenar os afetos
  • reconectar a pessoa com o bem real